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Noosfera: Anjo barbudo [entries|archive|friends|userinfo]
Filho da Desgraça

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[Links:| ABRE-LATAS O IRREVERENTE Por que morremos, senhor? Judearia ]

PESQUISA MUNDIAL [Jan. 29th, 2004|01:43 am]
[mood | awake]

A ONU resolveu fazer uma grande pesquisa internacional. O objectivo era conhecer a resposta dos cidadãos à seguinte pergunta:

"POR FAVOR, DIGA HONESTAMENTE QUAL A SUA OPINIÃO SOBRE A ESCASSEZ DE ALIMENTOS NO RESTO DO MUNDO"

Eis os principais resultados:
  • Os europeus do norte não entenderam o que é "escassez".

  • Os africanos não sabiam o que era "alimentos".

  • Os espanhóis não sabiam o significado de "por favor".

  • Os norte-americanos perguntaram o significado de "o resto do mundo".

  • Os cubanos estranharam e pediram maiores explicações sobre "opinião".

  • Em Portugal, os líderes dos grupos parlamentares pediram à Comissão Parlamentar de Ética para definir exactamente o significado de "diga honestamente".
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    Engate rápido [Jan. 29th, 2004|12:19 am]
    [mood | busy]

    Ai, se tudo fosse tão fiável como o engate rápido
    http://www.urmi.pt/engate.htm
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    Citação [Jan. 27th, 2004|12:03 am]
    "A extensão do 'nunca mais' com a tua morte vai até à morte do universo. E é sobretudo isso que a torna incompreensível"
    Vergílio Ferreira
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    Miklos Feher [Jan. 26th, 2004|12:04 am]
    [mood | sad]

    Hoje o clubismo perdeu todo o sentido...

    A morte de Miklos Feher deixou-nos a todos consternados.

    Em homenagem a este jovem que hoje nos abandonou, apelemos ao Presidente da República para que lhe seja atribuída uma condecoração, a título póstumo, no 10 de Junho.
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    Está tranquilo! [Jan. 25th, 2004|07:22 pm]
    [mood | angry]

    "Toda a infelicidade do homem deriva de uma única coisa, o facto de ser incapaz de permanecer quieto no seu quarto" - Pascal.
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    Estudo de mercado: PUTAS E ECONOMIA PARALELA [Jan. 23rd, 2004|07:24 pm]
    O estudo foi divulgado pelo Expresso: num só ano, 40% dos homens portugueses recorreram à assistência técnica de profissionais para se satisfazerem sexualmente. Contas por alto, um milhão e duzentos mil homens.

    Só preciso de mais dois dados para fazer uma estimativa de quanto vale o sector: preço médio por cada serviço e assiduidade média dos clientes.

    Se pagassem imposto, talvez se resolvesse o défice?

    Quantas mulheres são precisas para satisfazer um milhão e duzentos mil clientes por ano?

    Imaginando o seguinte cenários:
    - uma prostituta para cada 50 clientes;
    - em média, cada cliente vai 6 vezes por ano (estimativa modesta)
    - um preço médio por serviço de 100 euros

    Obtém-se:
    24 mil profissionais
    sete milhões e duzentos mil serviços prestados.
    750 milhões de euros de receita

    Se 150 milhões de euros (20%) fossem para impostos, teríamos um défice bem abaixo dos 2.8%.
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    Estudo de mercado: PUTAS [Jan. 23rd, 2004|05:56 pm]
    [mood | excited]

    ALGUÉM ME SABE DIZER QUANTO É QUE SE PARA PARA IR ÀS PUTAS?

    Se souberem agradeço que me informem: é para iniciar um estudo de mercado.
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    Realidade Improvisada [Jan. 21st, 2004|01:34 am]
    [mood | awake]
    [music |Let spend a night together]

    Ainda o país se curava da ressaca das primeiras vagas de reality shows e eis que se descobre o filão Casa Pia. Filão imenso que promete fidelizar clientelas, pelo aprimorar da notícias-espectáculo, aumentar as vendas de jornais e, pelos vistos, elevar a notoriedade do país.

    No afã de explorar rentavelmente este filão de metal precioso, entram em palco bons e maus actores das mais variadas escolas, contracenando em conjugação inusitada, nos mais variados pápéis: pedopsiquiatras que falam pelas vítimas, advogados que servem de alter-ego dos clientes, juízes maneiristas, psicólogos da memória vindos da América, políticos que juram confiar na Justiça quando ela aponta o dedo aos outros, comentadores omniscientes...

    Creio que a todos estes actores, por mais avisados que se julguem, seria bastante útil a leitura de um livro interessante: "Rumor, A Realidade Improvisada" http://estrategiascriativas.com/publicacoes/Rumor.htm

    Apesar de já estar publicado há mais de 4 anos, poucos o conhecem. Mas tenho a certeza que seria uma grande mais-valia para quem quiser entender um pouco melhor este tipo de fenómenos mediáticos.

    A ver vamos, como diz o cego. Deus te ouça, como diz o surdo.
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    POLÍCIA DE COSTUMES [Jan. 20th, 2004|12:02 am]
    [mood | complacent]

    Uma portaria deliciosa:
    Transcrevo esta pérola que retirei do blogue http://tomarpartido.weblog.com.pt

    Corria o longínquo ano de 1953 quando a Camara Municipal de Lisboa publicou a Portaria nº 69.035, destinada a aumentar o policiamento em zonas então consideradas "quentes". Pela curiosidade do texto, aqui o reproduzimos sem comentários.

    "Verificando-se o aumento de actos atentatórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins e, em especial, nas zonas florestais Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Polícia e Guarda Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Postura nº 69035, estabelece-se e determina-se que o artº 48º tenha o cumprimento seguinte:

    1º Mão na mão........................2$50
    2º Mão naquilo.......................15$00
    3ºAquilo na mão....................30$00
    4º Aquilo naquilo....................50$00
    5º Aquilo atrás daquilo..........100$00
    Parágrafo único
    Com a língua naquilo,150$00 de multa,preso e fotografado.

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    DOU ALVÍSSARAS [Jan. 19th, 2004|02:12 am]
    [mood | awake]

    A QUEM ENCONTRAR UM MEIO PARA REDUZIR O UMBIGO FUTEBOLEIRO DOS PORTUGUESES.
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    Pós-Graduação em Gestão de Aparcamento [Jan. 15th, 2004|08:36 pm]
    [mood | content]
    [music |Quero Cheirar Teu Bacalhau]

    CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO
    EM GESTÃO DE APARCAMENTO</p>
    DA ESCOLA SUPERIOR DE GESTÃO DE ESPAÇOS URBANOS
    </p>

    INICIATIVA
    Reitoria da Universidade Técnica de Cabinda (UTC), Instituto Superior de Arrumadores de Carros, Autocarros, Camiões e Atrelados (ISACACA) e Unidade de Reciclagem do Grupo Salvador Caetano (URGSC).</p>
    COORDENAÇÃO
    Dr. Frei Rui Rio (em representação do ISACACA) e Major Otelo Saraiva de Carvalho (UTC)</p>
    OBJECTIVOS
    Proporcionar formação científica e técnica especializada a quadros superiores ligados ao Sector de Serviços Informais, de molde a proporcionar uma capacidade de intervenção profissional actualizada e eficiente no novo domínio da Economia Paralela e Alternativa (EPA).</p>
    ORGANIZAÇÃO
    O curso apresenta uma estrutura baseada em módulos e está organizado pelo sistema de unidades de crédito. Os módulos incluem: Qualidade nos Serviços de Aparcamento; Inglês (Conversação); Relações Públicas; Direito do Consumidor; Manobras de Atracagem; Gestão de Conflitos; Manobras de Abordagem; Higiene, Controle e Segurança; Defesa Pessoal; Civismo e Empatia.</p>
    CONDIÇÕES DE ADMISSÃO E CANDIDATURAS
    São candidatos à matrícula no Curso, os licenciados, nacionais ou estrangeiros, nos domínios de Dificuldade de Letras, Engenharia do Desenrasque ou, ainda, jovens diplomados à procura do primeiro tacho.
    Candidaturas: de 1 de Fevereiro de 2004 a 3 de Março de 2004.
    Documentos: Curriculum Vitae e Ficha de Candidatura.</p>
    INÍCIO DAS AULAS E FUNCIONAMENTO
    O curso funciona às sextas e sábados na Zona do Areeiro (Lisboa) e na Zona do Bom Sucesso (Porto), com início a 15 de Março.</p>
    INFORMAÇÕES E ENTREGA DE DOCUMENTAÇÃO
    Secretariado do Curso - Reitoria da Universidade de Cabinda. Palhota Atlântico, Santo António do Zaire, Cabinda Norte.
    Telef. +456 234 22 32; fax +456 235 23 32; www.isacaca.ca
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    O PRÍNCIPE E O MAGO [Jan. 12th, 2004|06:05 pm]
    [mood | curious]

    Era uma vez um jovem príncipe, que acreditava em tudo, excepto em três coisas. Não acreditava em princesas, em ilhas e em Deus. Seu pai, o rei, disse-lhes que tais coisas não existiam. Como não havia princesas ou ilhas nos domínios de seu pai, e nenhum sinal de Deus, o príncipe acreditou no pai.
    Um dia, porém, o príncipe fugiu do palácio e dirigiu-se ao país vizinho. Lá, para seu espanto, viu ilhas por toda a costa, e nessas ilhas viu criaturas estranhas e perturbadoras, às quais não se atreveu a dar nome. Quando estava à procura de um barco, um homem vestido de noite aproximou-se dele junto da praia.
    - Estas ilhas são de verdade? - perguntou o jovem príncipe.
    - Claro que são ilhas verdadeiras - disse o homem vestido de noite.
    - E aquelas estranhas e perturbadoras criaturas?
    - São todas autênticas e genuínas princesas.
    - Então, Deus também deve existir! - bradou o príncipe.
    - Eu sou Deus - replicou o homem vestido de noite, com uma reverência. O jovem príncipe retornou a casa tão depressa quanto pôde.
    - Então, estais de volta - disse o pai, o rei.
    - Vi ilhas, vi princesas, vi Deus - disse o príncipe num tom reprovador.
    O rei não se abalou.
    - Não existem ilhas de verdade, nem princesas de verdade, nem um Deus de verdade.
    - Diga-me como é que Deus estava vestido.
    - Deus estava todo vestido de noite.
    - As mangas da sua camisa estavam arregaçadas?
    O príncipe lembrou-se que estavam. O rei sorriu.
    - Isso é o uniforme de um mago. Você foi enganado.
    Com isto, o príncipe retornou ao país vizinho e foi para a mesma praia, onde mais uma vez encontrou o homem todo vestido de noite.
    - Meu pai, o rei, contou-me quem és - disse o príncipe indignado. - Tu enganáste-me da última vez, mas não o farás novamente. Agora sei que estas não são ilhas de verdade, nem aquelas criaturas são princesas de verdade, porque tu és um mago.
    O homem da praia sorriu.
    - És tu que estás enganado, meu rapaz. No reino do teu pai existem muitas ilhas e muitas princesas. Mas tu estás sob o encanto do teu pai, logo não podes vê-las.
    O príncipe, cabisbaixo, voltou para casa. Quando viu o pai, fitou-o nos olhos.
    - Pai, é verdade que tu não és um rei de verdade, mas apenas um mago?
    O rei sorriu e arregaçou as mangas.
    - Sim, meu filho, sou apenas um mago.
    - Tenho de saber a verdade, a verdade além da magia.
    - Não há verdade além da magia - disse o rei.
    O príncipe ficou profundamente triste.
    - Vou matar-se - disse, finalmente.
    O rei, pela magia, fez aparecer a morte. A morte ficou junto à porta e acenou para o príncipe. O príncipe estremeceu. Lembrou-se das ilhas belas mas irreais e das princesas belas mas irreais.
    - Muito bem - disse ele -, eu aguento com isto.
    - Vê - meu filho -, você, também, agora começa a ser um mago.

    JOHN FOWLES, in The Magus
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    VISITA NOCTURNA [Jan. 12th, 2004|05:09 pm]
    [mood | amused]

    A Vida é a estrada que conduz à Morte. Nada de ilusões: mesmo parado estou a caminhar na direcção certa. Mais certa do que o meu nome. Esteja onde estiver, faça o que fizer, Ela está lá à minha espera. Encontro inevitável. Só espero não ter que ser eu a marcá-lo. Não me atrai e por enquanto ainda a desprezo. E se um dia a desejar a valer, então sim, faço-lhe um sinal, e Ela talvez...
    Da primeira vez que se aproximou consegui afastá-la, mas foi muito difícil. Vinha todas as noites, quando me via deitado, com truques de chantagista:
    “Já sabes: se adormeceres, morres de imediato”.
    O pânico era tanto que ficava ali horas e horas naquela pose anaclítica estúpida de cadáver vivo, com o cérebro intoxicado e delirante. Nem morria, nem adormecia! Fazia lembrar aquela do puto que perdeu a paciência: caramba, nem o pai morre, nem a gente almoça! Farto daquele jogo, enchi o peito e armei-me em valente:
    “Estás aí a testar o meu medo? Olha, eu já te conheço como se fosses da família... E para te provar que a tua presença não me afecta, com licença, vou dormir fazendo de conta que não existes”.
    De manhã, ao acordar, sentia-me tão corajoso por ter conseguido fintar a mensageira de Thanatus e tão cobarde por recear que Ela voltasse, que tomei uma decisão drástica e definitiva:
    “Chega de bad trips!”
    Disse adeus ao LSD.

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    ERA UMA VEZ... [Jan. 12th, 2004|04:56 pm]
    [mood | calm]

    Era uma vez... Ou melhor: há-de vir a ser uma vez, porque esta história se passa no final do século XXI.
    É a história de um jovem e genial inventor, um daqueles homens que, pela forma como conjugam pensamento e acção, acabam por alterar a face do mundo e o fluir da História.
    Não lhe vou dar um nome, porque ele pode vir a ser um dos vossos bisnetos. Em qualquer caso, haverá que, antecipadamente, venerar a sua memória futura, como um dos salvadores da humanidade.
    Porque a Humanidade estava, nesse final do século XXI, à beira da ruina fatal. Não era uma questão de espiral inflaccionária, nem de luta de classes, nem de guerra generalizada. Era uma questão bem mais primordial e portanto bem mais grave: era uma questão cultural e mental. Sem estímulo, sem vontade, sem criatividade, o Homem definhava. Tudo estava feito e pensado, nada mais havia para criar; e nada mais havia para aprender, não porque se soubesse tudo, mas porque quase dois séculos de informações excessivas, mal processadas e mal digeridas, haviam embrutecido o espírito humano a ponto de impossibilitar a aprendizagem. O que, entre outros inconvenientes facilmente discerníveis, havia conduzido à mais absoluta servidão política e económica: os eleitorados, despojados de criatividade e defesa, haviam-se deixado dominar pela propaganda, sobretudo a incidiosa propaganda cinzenta, e pela mensagem publicitária, sobretudo a terrível e criminosa mensagem publicitária.
    Foi então que entrou em campo o nosso genial inovador, um jovem que, por qualquer razão inexplicável, se mantivera mentalmente acima da média dos seus tristes contemporâneos.
    O jovem olhou em sua volta, e disse, com o atrevimento da juventude:
    O que nos falta é exercício. De tanto vermos futebol sentados no estádio ou em casa, embriagámo-nos com o exercício dos artistas pagos para nos dar emoções que já nem sequer sentimos. De tanto absorvermos informação audiovisual já processada, sabe-se lá por quem, estamos à beira da analfabetização. Então, o que é preciso é um exercício completo, isto é, que mobilize o corpo e o cérebro.
    O jovem pensou muito neste problema e decidiu que o exercício que era urgente restaurar era o da escrita. O que implicava desafiar o poderosíssimo lobi dos processadores de texto. E foi aqui que se revelou o seu génio: inventou um instrumento de escrita de concepção simples e produção tão barata que batia qualquer concorrência. Tratava-se de um longo e delgado tubo cheio de uma pasta escura - a que chamou "tinta" - ligado a um pequeno dispositivo com um rolamento de esfera, tudo isto muito leve e facilmente manejável. A esfera, ao rolar sobre o papel, deixava um rasto de tinta, um traço contínuo, que era, digamos, o elemento-base a partir do qual era possível a cada utilizador DESENHAR AS SUAS PRÓPRIAS LETRAS.
    A este dispositivo chamou-se "caneta", e o seu êxito foi assombroso. Em pouco tempo, em escassos anos, o uso da escrita generalizou-se e algo estremeceu no adormecido espírito da Humanidade. Tanto assim que o nosso jovem inventor, já rico e transformado em potentado na área da produção de canetas, compreendeu que podia dar mais um passo. As pessoas, agora, sabiam escrever e ansiavam confusamente por algo mais. Esse algo mais, pensou ele, esse algo mais além da escrita é a estética da escrita. É preciso um instrumento aperfeiçoado para conseguir isso. E assim, o nosso ainda jovem inovador aperfeiçoou a sua caneta: substituiu o dispositivo de esfera por uma espátula de metal com ponta afiada e o estreito tubo de "tinta" por um depósito mais amplo, que o próprio utilizador enchia com tinta - já não uma pasta, mas um líquido escuro.
    E o êxito da nova caneta foi imediato, e a fortuna do inovador aumentou substancialmente. Mas foi então que, além do génio inventivo, se revelaram as suas magníficas qualidades humanas, porque ele pensou então:
    "Será bom refinar ainda mais a escrita artística, talvez com um novo produto que crie novas necessidades, mas ao mesmo tempo eu devia tentar fazer alguma coisa mais - com um acrescentado valor cultural e ético"
    E, estimulado por estas nobres preocupações, deu ordem ao gabinete de pesquisa da sua enorme empresa que se lançasse ao trabalho.
    Assim apareceram no mercado os dois instrumentos magnos da recuperação do Homem e do Planeta: um novo papel para cujo fabrico não era preciso encher de eucalptos as férteis planícies da Terra; um papel feito, com um processo não-poluente, a partir de uma bela planta ornamental, chamada papiro. E o segundo instrumento: uma nova e revolucionária caneta, de mecanismos simplificados, que já não trazia depósito de tinta incorporado. Bastava que o utilizador a mergulhasse num pequeno tanque de tinta - registado na repartição de patentes sob o nome de tinteiro - para que ela escrevesse maravilhosamente.
    Curiosamente, esta inovação teve uma consequência inesperada: o ressurgimento da criação artística artesanal, com a criação de tinteiros magníficos, verdadeiras obras de arte, em prata, ouro ou bronze, e de outros acessórios para a escrita, como, por exemplo, os belíssimos recipientes que se enchiam com areia fina, que se espalhava sobre a tinta fresca, para acelerar a secagem. Veja-se o que faz o progresso!
    E já no fim da sua vida, este genial inventor, este homem generoso e bom, teve um último rasgo de génio. Porque os sucessivos governos, como é hábito de todos os governos, haviam onerado com impostos toda a matéria-prima usada no fabrico das canetas, ele concebeu uma nova caneta ainda mais económica e mais revolucionária. Uma caneta ecológica, vinda directamente da Natureza: uma simples pena de pato com a extremidade aguçada, o que veio a garantir a sobrevivência destas aves, que estavam, como todas as outras, e com excepção dos abutres, em vias de extinção.
    Temos assim que esse grande inovador, o vosso eventual bisneto, salvou a escrita, salvou a cultura, salvou a Humanidade e salvou os patos.
    E é em sua memória futura que eu peço a vossa homenagem.


    JOÃO AGUIAR
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    Ao sabor do espírito [Jan. 6th, 2004|02:11 pm]
    [mood | busy]

    O ADMIRAVEL MUNDO NOVO DA GLOBALIZAÇÃO

    Apelo:

    Sr. Sousa Cintra, inunde o mercado de Fatima Cola! A primeira bebida não alcoólica de sabor mariano e patriótico, mas com teor igual ao da genuína.</p>
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    <b>O ADMIRAVEL MUNDO NOVO DA GLOBALIZAÇÃO <BR>
    <p>Apelo:</b></p> Sr. Sousa Cintra, inunde o mercado de Fatima Cola! A primeira bebida não alcoólica de sabor mariano e patriótico, mas com teor igual ao da genuína.</p>
    <img src="http://www.nodo50.org/haydeesantamaria/mecca_cola/Para_botes.jpg" border="2" align "left"> <BR>

    IN:http://www.nodo50.org/haydeesantamaria/mecca_cola.htm
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    A VIRGINDADE - 3º ACTO [Jan. 5th, 2004|06:56 pm]
    http://istoe.terra.com.br/planetadinamica/site/ensaios/previsoes_2003/foto6.htm

    A VIRGINDADE LEVA-A A MULHER NO CORAÇÃO E NÃO NA INTEGRIDADE DA SUA MEMBRANA SEXUAL”, já diziam os antigos anatomistas, em resposta àqueles que, no rompimento do hímen durante a noite de núpcias, insistiam em ver o sinal vermelho da nova aliança, a prova de que a noiva se preservou imaculada para conceder ao noivo o privilégio da defloração.

    No entanto, quem admite que o almejado pingo de sangue, aquele selo vermelho no lençol, pode não ser sinónimo de estreia absoluta, aceita implicitamente que a Natureza tem o direito de interferir na Honra do casal. De facto, desde o dealbar da Civilização, qualquer homem honrado precisava do sinal vivo e tangível da tomada de posse, o que, por conseguinte, obrigava à liminar rejeição, no âmbito da Anatomia, desta teoria da relatividade, muito anterior à de Einstein. Tanto mais que em questões de Honra não basta ser, é fundamental parecer. E, para que a essência pudesse ser regulada pela aparência, em muitos locais do mundo ganhou foros de ritual ver o noivo correr pelas ruas, na manhã pós-nupcial, com o lençol manchado, exibindo à vizinhança o sinal da sua honra e a marca de pureza da esposada donzela.

    Este acto, que ainda perdura em vários cantos do mundo, simbolizava o bom desfecho do contrato pré-nupcial. Com o lençol manchado, o noivo dava quitação do dote, e nada mais tinha a reclamar do pai da donzela.
    Mas o que fazer quando no lençol não ficava qualquer marca? Em tempos idos, só com a própria vida da depravada se salvava a honra de um recém-corno-rectro-activo. Porém, a honra da família nem sempre conseguia sobrepor-se à genuína paixão engendrada numa noite intensa de suor e grunhidos de prazer. Mas o que fazer, se não há sangue? Muitas vezes, era ela que, às escuras, com um gesto sub-reptício, derramava um pouco de sangue de coelho... Outras vezes, ele próprio, num cômputo pragmático salvo-os-dedos-da-paixão-e-que-se-lixem-os-anéis-da-honra, aceitava participar na farsa. Para vizinho ver, qualquer mancha vermelha servia.

    Foi na Manchúria que o lençol manchado mais profundamente se enraizou na vida social. Aliás, “manchúria” significa literalmente “mancha de lençol”, e é portanto natural que o ritual aí conhecesse o seu esplendor máximo. Um manchúrio só granjeava o respeito dos seus, se expusesse a mancha durante toda a semana, para que qualquer curioso pudesse proceder a uma análise minuciosa.
    Tal como na Manchúria, um pouco mais a Leste, no Império do Sol Nascente, a desonra decorrente de um lençol branco, sem mancha rubra, tinha que ser expurgada com hara-kiri, em que o desonrado se esventrava a si próprio, depois de fazer justiça à noiva por tão infame desdita.
    Como sempre acontece quando um ritual atinge o paroxismo do absurdo, é necessário repor o bom senso, nem que para isso seja necessário juntar um pouco de hipocrisia. Afinal, para poupar a vida do casal bastaria manter a honra pública, isto é, as aparências. A honra privada seria mantida com a cumplicidade das gheixas lá de casa. E foi então que uns mercadores vivaços viram nisto uma excelente oportunidade de negócio. Começaram a vender às gheixas uns lençóis especiais para serem utilizados na noite de núpcias. Era um lençol triplex, com duas camadas exteriores, da marca Branca de Neve, cosidas nos bordos de modo a formarem uma bolsa em cujo interior se escondia um lençol já usado, da marca O Glorioso, com mancha encarnada ao centro. Bastava retirar o lençol interior e expô-lo à varanda pela alvorada, para escrutínio geral. E porque preservou a honra de muitos casais e salvou a vida a tanta gente, este singular artefacto acabou por ser adoptado como símbolo máximo da nação nipónica.
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    A VIRGINDADE - 2º ACTO [Jan. 5th, 2004|06:54 pm]
    [mood | busy]

    Acreditar que a integridade orgânica do aparelho genital - isto é, a manutenção do hímen intacto -, constitui o selo de garantia e o símbolo da inocência é tão ingénuo como acreditar que os deputados representam os seus eleitores. Existe um tipo de hímen muito flexível, que se pode esticar com facilidade sem se romper durante todo o acto. Também há deputados tão vira-casacas que, mesmo sem traírem o seu partido, interpretam os interesses dos seus eleitores de forma tão flexível que nunca chegam a corromper-se durante todo o mandato. Por outro lado, alguns acidentes podem provocar a ruptura do hímen independentemente das relações de coabitação sexual. O mesmo se passa com alguns deputados que, por acidentes de percurso, chegam a corromper-se independentemente das relações de coabitação parlamentar.

    A bem de uma verdadeira política sexual da Nação e da defesa da intimidade em matéria de sexo na política, há que manter as duas actividades bem separadas. Quem na tribuna fala ao hemiciclo produz sensações que ao falo são alheias.
    Até mesmo no caso Clinton-Lewinsky, contrariamente ao que muitos pensam, houve sempre algum cuidado para não devassar a intimidade alheia. Pingos no vestido qualquer lavandaria resolve. Tudo o resto andou à volta de saber se o pré-anunciado coitus linguae era algo mais do que um simples lapsus linguae habilmente extorquido por um procurador que, de tanto chatear, acabou por levar o Presidente a irritar-se, a ponto de bradar diante das televisões: “IRRA-QUE-ANO!” Os conselheiros de Defesa perceberam “IRA-QUI-ANO”, e vai de lançar mais uma porrada de mísseis sobre um povo soberano, tão soberano e tão independente, que dele nada depende.

    Apesar de toda a agiotagem jornalística sobre uma reles ninharia que ameaçou paralisar a América, ainda hoje continuamos sem saber se a Lewinsky permaneceu virgem... Tentei averiguar, mas ela não atendeu os meus telefonemas, e a mensagem do seu gravador de chamadas é deveras inconveniente: “Neste momento não posso atendê-lo, por favor, deixe a sua mensagem”. Desliguei o telefone e pus-me a cogitar. Neste momento não me pode atender... Será que também me quer atender e, por azar, neste momento não pode? Se assim é, quantos estarão à minha frente?... Será que entendi bem? Por favor, deixe a sua mensagem. Não, nem pensar, seria um absurdo de todo o tamanho: “Hy, Monica! My name is CEM, I’m a portuguese writer. I just want to know you are actually a virgin girl
    Prefiro a ignorância ao embaraço...
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    A VIRGINDADE - 1º ACTO [Jan. 5th, 2004|06:43 pm]
    [mood | busy]

    O modelo da virgindade, de seu nome Maria de Nazaré, tem servido de inspiração a muitos pensadores geniais. Mas, como dizia Agostinho da Silva, génio e fraude são irmãos gémeos...
    A corrente dos tempos deslizando no leito da História nunca passa duas vezes sob a mesma ponte. Os factos históricos estão encadeados numa sequência exacta, mas cada um julga-se no direito de enovelar a corrente dos factos numa nova cadeia de confusões. A História não é como um filme, em que basta fazer uns cortes e trocar umas cenas por outras. A cena bíblica da Anunciação jamais poderá ser transposta para outro tempo. E de nada vale especular sobre como teria sido se o Realizador celeste tivesse alterado o argumento, para aumentar o impacto na audiência.

    Sem dúvida, a Anunciação foi proclamada em Nazaré e o parto deu-se em Belém, tal como estava previsto e o comprovam diversas testemunhas, embora a Conservatória dos Registos Centrais da Palestina nunca tenha lavrado o assento de nascimento. É que nos tempos áureos em que tudo isto ocorreu, quase ninguém pedia certidões de nascimento e só tirava de BI quem quisesse obter a carta de cafilista. Para se ser cafilista havia que fazer exame a duas disciplinas: “Navegação por Reflexo das Estrelas nas Areias do Deserto” e “Jornalismo Expedicionário”. A exigência de BI aos cafilistas servia unicamente para garantir que os camelos eram orientados por homens encartados, e não por mercadores sem escrúpulos.

    É portanto impossível comprovar por meios cadastrais os factos relativos à Anunciação. Em alternativa, podemos apoiar-nos na Tradição que, como se sabe, sempre foi o principal esteio da História.

    Nos velhos tempos bíblicos, estava profeticamente previsto que Deus tinha que se fazer Homem e dar um sinal da sua graça: isto é, renoivar (ou renovar?) a aliança. Além disso, o povo hebraico estava já farto de viver naquele inóspito deserto sem ter realmente a certeza de se encontrar na Terra Prometida.
    Já nem as lendas do velho Abraão e do aventureiro Noé, nem sequer as Tábuas de Moisés, serviam de inspiração aos jovens judeus. Sempre que subiam ao Monte Sinai para desopilar, sentiam-se envergonhados ao lado dos seus colegas gregos e romanos. E nem se atreviam a mijar ao lado deles. Além de não possuírem roupa de marca, o que os inferiorizava diante dos ocidentais, tinham todos uma marca gravada na ponta do pirilau, e nos outros não havia o menor sinal de excisão do prepúcio.
    Para cúmulo, só por serem curcuncizados à nascença, os jovens judeus também eram motivo de escárnio por parte das meninas da Judeia. Talvez por isso, elas preferissem os pirilaus dos estrangeiros: egípcios, fenícios, sírios, gregos e romanos.
    Os jovens hebraicos não se conformavam com a sua má sorte, está-se mesmo a ver. E de surdina, inclusive nas sinagogas de bairro, começavam a questionar a versão oficial segundo a qual “a circuncisão remonta a Abraão e tem o carácter de sinal de aliança com o seu povo, tendo sido determinado que se realizasse no oitavo dia após o nascimento”.
    Era caso para desconfiar: “Milhões e milhões de pirocas molestadas como sinal de aliança?!... Qualquer dia esses anti-semitas ainda começam a dizer que fomos nós que inventámos os piercings do falo”. Falava assim quem já não acreditava nessa coisa do Messias, e eram cada vez mais numerosos.

    Foi neste contexto de cepticismo, com as hormonas em estado de sítio, que se tornou imperioso apressar a vinda do Salvador, na ânsia de fazer com que sinagogas voltassem às enchentes de outrora. E foram justamente os ressabiados da circuncisão, entre a facção dos ainda crentes, os que mais conspiraram para precipitar o fenómeno.
    Para a hipótese do Deus Filho vir ao mundo dos homens pela via do parto natural, havia duas possibilidades antagónicas: encarnar numa descendente directa do rei David, como preconizava a doutrina oficial dos profetas, ou encarnar numa qualquer rapariga do povo (isto se o alto clero e os grandes senhores de Jerusalém não se decidissem a apressar o fenómeno...)
    Como sempre acontece, o poder sofre de inércia, mas o povo é soberano (quando se cansa de fazer figura de parvo). E povo que se preze dá primazia às filhas do povo. Estava decidido. A aliança ia ser renoivada (ou renovada?).
    Mas ainda havia um problema sério a solucionar: como dissociar o nascimento do Salvador da plebe da Judeia, sem linhagem geneológica à altura de tão transcendente momento? Esta era uma questão teológica de primeira grandeza, uma vez que da natureza do acto iria depender a própria natureza do efeito. Deus, mesmo que encarnado – calma, Eusébio! Ninguém te chamou – não pode tomar partido, principalmente no momento em que nasce.
    Era necessário ser original. E é aí que o Espírito Santo, o mais democrata entre todos os entes divinos, aquele que não faz distinção de classe, raça ou nacionalidade, decide intervir em favor do povo.
    Graças aos bons ofícios do Arcanjo Gabriel, que de imediato se prontificou a seleccionar a donzela e a levar-lhe a Boa Nova, Maria de Nazaré engravidou virgem, sem mácula, o que, caso não saiba porque não esteve atento, passou a ser o primeiro sinal da nova aliança.

    Bem, se o primeiro sinal da nova aliança é a virgindade, é muito provável que a circuncisão saia de moda”, diziam os jovens filisteus e os activistas pré-cristãos. E ficavam encantados com a originalidade deste dito espirituoso: “Circuncisão - saia de moda!”... Não era ainda o tempo da mini-saia, mas era já um prenúncio... embora, em rigor, a moda daquele tempo fosse uma espécie de tabardos de linho, e não propriamente saias tal como hoje as conhecemos.
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    PRÉ-HISTÓRIA DA VIRGINDADE [Jan. 5th, 2004|06:37 pm]
    [mood | busy]

    Enquanto valor a preservar, a virgindade é muito anterior à Anunciação.
    São bem conhecidos os métodos de defesa da virgindade usados por Gregos, Persas e Fenícios. Segundo a primeira referência de que há memória sobre a matéria, foi o Escorpião que, para defender a Castidade da deusa Diana, que Orion tentou violar, o picou no pé.
    Desde então, muitas pequenas princesas e cortesãs, no dia da primeira menstruação recebiam como presente paterno um escorpião de bronze, todo articulado e com dentes de agulha, graças ao qual inúmeras vezes foi possível evitar in extremis a eminente defloração inopinada. Quando bem aplicado, os seus dentes de agulha vazavam literalmente de lés-a-lés o insolente membro intruso, a ponto de o invalidarem sem retorno. As camadas mais pobres não tinham recursos para tão precioso utensílio, e foi necessário produzir um instrumento similar, embora menos sofisticado. E assim foi inventado o alicate.

    À primeira vista, estava o problema resolvido: coiso triturado e virgindade defendida ou prazer partilhado e virgindade perdida, a escolha é sua. Havia contudo outros riscos que não tinham sido ponderados pelos mentores da técnica anti-defloratória. Fosse a inépcia feminina no uso do instrumento, fosse a dificuldade de o aplicar à pessoa amada, fosse ainda a procura de prazer em órgãos e locais que o Criador dedicou a outro fim, o certo é que, amiúde, só muito tardiamente a família se inteirava de que a menina tinha perdido o selo de garantia, apesar de ter o escorpião ali à mão.

    Um caso exemplar foi o da princesa da Pérsia, de seu nome Améstris, que, no momento mais empolgante da cavalgada, se deixou cair de frente sem pensar nas consequências. Não fossem as peripécias seguintes, e este caso nunca teria passado a papiro. No pânico pós-coito, período que em alguns casos chega a durar alguns meses, a jovem Améstris decidiu fazer-se de vítima. Muniu-se de coragem, escorpiou o dedo mindinho furando pele e osso, e foi a gritar para os aposentos do pai: “Papá, papá, o mercador Caraka violou-me! Não tive como me defender... olha o que ele me fez”. De dedo em riste, abundantes lágrimas de artifício e sangue ainda a pingar sobre os tapetes persas, portou-se como uma verdadeira mártir. Em fúria, o rei seu pai mandou os guardas procurarem o mercador Caraka. Não demoraram dois minutos a encontrá-lo. Caraka estava mesmo ali na alcova da rainha Atossa, e não estava só. Que vergonha infame, rainha e mercador apanhados em flagrante!
    A pancada foi tão forte, como forte era já a dor de corno, que o rei de imediato os esfacelou aos dois, à machadada. Segundo o cronista régio, o rei Dário já só teve forças para realizar mais um acto público: um édito que proibia o uso na Pérsia de alicates e escorpiões para fins preservativos.
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    Academia do Caruncho num país podre de muitos séculos [Jan. 2nd, 2004|10:41 am]
    [mood | angry]

    Porto, Junho de 2001, Livraria Lello:
    - Senhor Braga, tem à venda o dicionário bué que demorou 220 anos a fazer?
    - Desculpe, o dicionário bué demorou 222 anos a ser feito! Quer levar os dois volumes?
    - Com certeza.

    Santa Ingrácia pode repousar em paz, agora que já tem muitos devotos seguidores neste podre país. Creio até que é oportuno propor ao Guinness Book a inclusão do item “Obras de Santa Ingrácia” como categoria de recordes. E o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, editado pela Academia das Ciências de Lisboa, seria seguramente o candidato mais sério ao título de recordista, sem concorrentes à altura.

    Lisboa, 1846, Alexandre Herculano, in A Dama Pé de Cabra (Lendas e Narrativas):
    ... “O ónagro fitou as orelhas e, em sinal de aprovação, começou a azurrar; começou por onde, às vezes, academias acabam”.

    Assim, a zurzir contra a inércia da academia, Herculano satirizava em 1846 o emperrado dicionário, abandonado em 1793, ano em que a Academia decidiu parir o opúsculo da letra A (a - azurrar). Desde então, até se chegar à palavra “zurzir” e se concluir a Obra de Santa Ingrácia da cultura portuguesa, haveriam de passar mais uns míseros 154 anos!...

    Estamos todos de parabéns! Nenhum povo se pode orgulhar de ter uma Academia das Ciências capaz de produzir uma obra:

  • em 222 anos pelo custo equivalente ao de 500 metros de auto-estrada;
  • editada na viragem do milénio, mas ignorando o património milenar da língua;
  • pior em muitos aspectos do que os dicionários electrónicos que o pessoal do Bill Gates tem colocado no Office.

    Demorou a "azurrar" mas, quando finalmente apareceu, não faltou quem o quisesse "zurzir"!... Eram tantas as perplexidades... Este dicionário, todo prá-frentex, introduziu na língua portuguesa bué de vocábulos de calão (entre eles, o dito) e neologismos com solução de aportuguesamento altamente perigosa, do tipo “icebergue” ou “croiassã”.

    Uma das críticas apontadas à Academia das Ciências é o facto de o dicionário não incluir palavras anteriores ao século XIX. Em entrevista à TSF, Vasco Graça Moura apontou o facto de não estarem contempladas palavras já utilizadas por escritores como Fernão Lopes, Camões, Gil Vicente, Sá de Miranda ou Padre António Vieira. «Autênticos pais da língua que falamos hoje são pura e simplesmente ignorados», salientou, argumentando: «Faltam inúmeras palavras da língua, que se encontram nos textos dos nossos grandes escritores», algumas mesmo da década de 90. «É mais importante ter um dicionário que me permita ler Aquilino Ribeiro ou Álvaro Guerra do que inclua a expressão bué», sintetizou o escritor.

    Por mim, os bués também têm direito à vida, mas o que mais me chateia é ver o Titatic a bater contra o “icebergue”... Como explicar a uma criança que o “i” também pode ser lido como “ai”???

    Termino com um conselho: se tiverem que gastar cento e tal euros num dicionário sólido da língua portuguesa, o melhor ainda é o da Livraria Lello & Irmão (também em 2 volumes), embora não dê tantas garantias, uma vez que:
  • não demorou séculos a fazer;
  • não envolveu instituições tão sólidas como a Academia de Ciências, a Fundação Gulbenkian e o Ministério da Educação;
  • não precisou que o Estado disponibilizasse uma equipa de 60 professores para ajudarem os doutos senhores a concluir a obra.

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